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Entre os fios do destino e a fé: a artesã itaguarense que presenteou o Papa São João Paulo II

A névoa da manhã ainda pairava sobre o povoado de Boa Vista quando Adagemira Vasconcelos da Fonseca (a quem todos chamam carinhosamente de Dona Merita), sentou-se diante de seu tear. O ano era 1980. A madeira gasta pelo tempo rangia suavemente sob o peso das mãos experientes da artesã. Seus dedos, ágeis e precisos, trançavam os fios com a paciência de quem compreendia que cada trama contava uma história. Naquele momento, ela não tecia apenas uma colcha como qualquer outra, mas um pedaço de sua alma, algo que carregava sua essência e a tradição de seu povo. Aquela colcha seria um presente mais do que especial.


Quem poderia imaginar que aquelas mãos calejadas pelo trabalho no campo e pelo artesanato chegariam até o mais alto representante da Igreja Católica? Mas foi exatamente isso que aconteceu. Em 1º de julho de 1980, o Papa João Paulo II visitaria Belo Horizonte, e Dona Merita, uma artesã itaguarense do povoado da Boa Vista, teria a chance de oferecer ao sumo-pontífice um presente feito por suas próprias mãos.



D. Merita mostrando uma colcha semelhante àquela que presenteou o Papa
D. Merita mostrando uma colcha semelhante àquela que presenteou o Papa

A notícia de que ela teria a honra de conhecer o Papa foi inicialmente silenciosa. D. Merita não contou para quase ninguém, até que tudo fosse definitivo, pois ela ainda não havia colocado os pés na capital mineira, tampouco sabia como se virar por lá. Mas a notícia correu pela região como um vento morno de outono, despertando a curiosidade e a emoção de todos.


Padre Mauro Passos, à época sacerdote da Paróquia de Nossa Senhora das Dores, fazia um trabalho espiritual que não só guiava as almas para os desígnios sagrados de Deus, mas também libertava os espíritos com seu trabalho social – que era também uma forma de resistência à Ditadura Militar (1964-1985) através da formação de cidadãos conscientes, críticos e engajados na transformação da sociedade. Ele foi o primeiro a perceber que D. Merita era a escolha perfeita para representar a comunidade. Mais do que uma artesã talentosa, ela era uma mulher de fé e humildade, cuja história se entrelaçava com os desafios e esperanças de sua gente.



Convite enviado a D. Merita para estar no Altar-Mor junto ao Papa
Convite enviado a D. Merita para estar no Altar-Mor junto ao Papa


Desde jovem, D. Merita sabia que o artesanato era mais do que um ofício – era uma forma de expressão, uma ligação entre o passado e o presente, um espelho da identidade de seu povo. Para ela, cada ponto bordado, cada fio entrelaçado no tear, carregava um significado profundo. “O artesanato está muito mais associado a pessoas do que a objetos”, escreveu Pe. Mauro; “O melhor espelho de uma comunidade é a sua cultura”.


O dia da viagem a Belo Horizonte chegou com a promessa de algo grandioso. D. Merita, que nunca havia saído de sua terra natal, via o trajeto até a capital mineira com um misto de encantamento e receio. Ela se perguntava como seria estar diante do Papa, o líder máximo da Igreja Católica, alguém que muitos viam apenas pela televisão ou ouviam pelo rádio. Seu coração pulsava acelerado, mas sua fé lhe dava forças. Ela segurava a colcha com cuidado, sentindo o peso simbólico daquele presente.


Quando o Papa João Paulo II aterrissou no Aeroporto da Pampulha em 1º de julho de 1980, Belo Horizonte parou. O cortejo percorreu as principais avenidas da cidade, enquanto multidões se reuniam para vê-lo de perto. Era um evento histórico, um encontro de fé e esperança que unia centenas de milhares de pessoas em uma só voz. As praças estavam tomadas de fiéis que aguardavam ansiosos pela celebração da missa. O Papamóvel seguiu pela Avenida Afonso Pena até a Praça Israel Pinheiro, no alto do bairro Mangabeiras, onde um altar havia sido montado aos pés da Serra do Curral (local rebatizado como Praça do Papa).



 Estrutura montada para cerca de 800 mil pessoas em Belo Horizonte (Fonte: Arquidiocese de BH)
Estrutura montada para cerca de 800 mil pessoas em Belo Horizonte (Fonte: Arquidiocese de BH)


Ali, entre centenas de milhares de pessoas, D. Merita participou da missa com fervor. Seus olhos brilhavam com uma mistura de emoção e humildade. Quando chegou sua vez de se aproximar do Papa, sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Com as mãos trêmulas, estendeu a colcha ao Santo Padre.


O Papa sorriu, pegou o presente e o observou com atenção. Em um gesto inesperado, tocou levemente as mãos da artesã e lhe ofereceu um terço de contas peroladas, um presente singelo, mas carregado de fé.


Aquele terço se tornaria um objeto sagrado na casa de D. Merita. Ele esteve presente nos momentos mais difíceis, como quando seu marido, Sr. Daniel, sofreu um grave acidente. Carregando pedras em seu carro-de-bois durante um dia chuvoso, uma delas escorregou e esmagou sua mão, levando-o a uma infecção que se transformou em tétano. Durante quase 90 dias esteve em coma e passou internado no Hospital João XXIII, a família de D. Merita rezou incessantemente com o terço dado pelo Papa. E, por intercessão divina, Sr. Daniel sobreviveu, recuperando-se plenamente.



D. Merita com o terço presenteado pelo Papa
D. Merita com o terço presenteado pelo Papa


Naquela tarde memorável de 1980, enquanto João Paulo II proferia sua homilia, sua voz ecoava pelas montanhas de Minas, alcançando corações e mentes. Ele disse: “... meu desejo seria o de apertar as mãos de cada um de vocês e falar com cada um. Em todo caso é a cada um que sigo dizendo a todos: jovens de Belo Horizonte e de todo Brasil, o Papa quer muito bem a vocês! O Papa não os esquecerá nunca mais! O Papa leva daqui uma grande saudade de vocês.”


Ouvindo aquilo, D. Merita sentia-se abençoada. Ela, uma humilde artesã de Boa Vista, tivera a oportunidade única de tocar as mãos do Santo Padre e de entregar-lhe um presente que carregava não apenas fios, cores e formas, mas a essência de sua fé e de sua gente.


E assim, após aquela tarde inesquecível, D. Merita voltou para sua terra com um terço nas mãos, uma bênção no coração e a certeza de que, por mais simples que fosse sua origem, sua história agora fazia parte de algo muito maior.


No entrelaçar dos fios da existência, como a trama delicada da colcha tecida por D. Merita, há mistérios que fogem à compreensão humana. Diz-se que Deus não escolhe seus verdadeiros obreiros pelo mérito, mas por Sua infinita Graça. Por isso, cada encontro, cada gesto e cada dádiva possuem um significado que transcende a lógica terrena. A história de D. Merita não é apenas sobre um presente oferecido ao Papa São João Paulo II, mas sobre a manifestação silenciosa da Providência, que age sem alarde, escolhendo aqueles que, na simplicidade de suas vidas, refletem a grandeza da fé. Como disse Santo Agostinho, a eleição divina não se pauta nas obras humanas, mas no insondável desígnio de Deus. Assim, talvez o verdadeiro milagre não esteja apenas no terço abençoado ou na cura inesperada de Sr. Daniel, mas na capacidade de reconhecer, nas tramas do cotidiano, o fio invisível que liga o homem ao sagrado.


Referências


MARTINIANO, Maristela Costa. Visita do Papa João Paulo II a Belo Horizonte, em 1980. 2021. Disponível em: https://arquidiocesebh.org.br/noticias/visita-do-papa-joao-paulo-ii-a-belo-horizonte-em-1980. Acesso em: 16 mar. 2025.


PASSOS, Mauro. ESBOÇO HISTÓRICO: ...caminhos do artesanato "Nica Vilela - fios e formas" de Itaguara. [2019]. Disponível em: http://www.paroquiasenhoradasdores.com/centro.html. Acesso em: 16 mar. 2025.



Dona Merita com a edição especial da revista Manchete sobre a visita do Papa João Paulo II
Dona Merita com a edição especial da revista Manchete sobre a visita do Papa João Paulo II

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